​© 2013 por Luisa Restelli


 

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A mulher soterrada
A imposição da perfeição e as distorções do feminino

Luisa Restelli, Mar. 2017  (texto feito para o grupo de email na semana da mulher)

 

Nós aprendemos desde cedo que precisamos ser "perfeitas". Como "perfeição", me refiro ao padrão de beleza e comportamento imposto que, teoricamente, deveríamos seguir. Desde criança, precisamos ser muito inteligentes, nos vestir impecavelmente, nos comportar de maneira recatada e quieta. Ouvimos: "Tenha modos! Uma menina não fala palavrão! Fecha a perna! Uma menina linda como você não pode se comportar desse jeito! Ajeita esse cabelo, está parecendo um moleque!" Muitas, desde cedo também, aprenderam que precisam fazer os serviços domésticos e ajudar a mãe em casa por ser a filha menina, enquanto seu irmão fica se divertindo por aí. 

 

Vamos crescendo e as exigências só vão aumentando. Precisamos ter o corpo perfeito imposto pela mídia, sem nossas curvas naturais e sem nossas marcas corporais completamente comuns. O cabelo tem que ser impecavelmente liso e sedoso como vemos nos comerciais e que muitas se esforçam com mil produtos caríssimos pra conseguir ter. Somos cobradas para estar em um relacionamento sério e "não ficar pra titia", porque tem algo de errado com uma mulher que está solteira ou não quer se casar e nem ter filhos (ao contrário do homem que é enaltecido quando fica solteiro e "livre"). Afinal, este é o papel da mulher: casar e ter filhos. Não é? Por muito tempo, realmente foi este o nosso papel, pois nos diziam que nós não servíamos para nenhuma outra coisa. Parece um discurso antiquado até, mas que, infelizmente, ainda está muito enraizado em nossa cultura e nas cobranças que recaem sobre nós. 

 

Também precisamos ser perfeitas mães, perfeitas esposas, perfeitas em nossas profissões, perfeitas filhas, perfeitas em tudo o que fizermos, pois se saímos da linha, somos cobradas, julgadas e tememos mostrar que "viu? mulher não serve mesmo pra isso". Vivemos em uma eterna guerra interna para nos manter sempre no controle de nós mesmas e não deslizar, suprindo aquilo que esperam de nós. 

É importante compreender que nenhuma dessas características citadas são, em si, necessariamente algo ruim. A questão é a imposição, a cobrança e as escolhas. A idéia de que, por ser mulher, precisamos seguir esses padrões; a cobrança que nos pressiona de várias maneiras, explícitas e implícitas, para segui-los e o quanto essa pressão faz mal a tantas mulheres; e a importância de podermos escolher por conta própria como queremos ser e fazer, respeitando a maneira de ser e fazer de todas. Além disso, a urgência pelo respeito ao feminino, em todos os seus aspectos, que explicarei a seguir.

 

Aprendizado nosso de cada dia

 

Em nossa sociedade patriarcal, os valores masculinos são tidos como exemplo e enaltecimento e o que vem do feminino é diminuído e desvalorizado. Nossa maneira de funcionar como mulher não só não é compreendida e deixada de lado como também é ridicularizada e inferiorizada.

 

Homens e mulheres, no geral, de fato tem maneiras diferentes de funcionar, pois se temos doses de hormônios diferentes, corpos diferentes e um funcionamento corporal bem distinto, como poderia não ser assim também com nossa psiquê? Nós, mulheres, somos cíclicas, somos um movimento em constante mutação. Somos, sim, muito emocionais pois reagimos e sentimos a vida de outra forma muito mais subjetiva, e tudo isso é poderoso, é maravilhoso! Infelizmente, por ser diferente do que é tido como comum nos homens, essas características se tornam inferiorizadas e caricaturizadas.

 

Desde cedo, por estarmos em um sociedade que valoriza muito mais o prático, o objetivo, o competitivo, o produtivo, somos ensinadas a "engolir o choro", ensinadas que ser intensa, amorosa, acolhedora, sentimental, é fraqueza. Aprendemos que ser sutil, ser doce é ser frágil. Que delicadeza é o oposto de ser forte. Deixamos de lado essas características ditas como "frágeis e coisas de mulherzinha" sem perceber que elas também nos fazem fortes! Isso também pode ser a nossa força! Nada tem de errado com isso, e nada disso nos impede de ser "guerreira", produtiva e objetiva como o mundo externo nos pede. É a distorção dessas qualidades que nos quebram.

 

Aprendemos que tudo aquilo que vem das mulheres não serve, não é bom. Nosso sangue é sujo, nosso corpo é pecado, nossa sexualidade é vergonhosa e nossas emoções borbulhantes e cheias de vida são frescuras. Deste modo, não aprendemos a lidar com nosso próprio corpo, espontaneidade, sentimentos e modo de ser.

 

Assim, nos tornamos mulheres duras, rígidas, que odeiam seus corpos, que sofrem de terríveis cólicas, não conhecem seus ciclos, sofrem de ansiedade, depressão e inúmeras doenças que acometem muito mais mulheres do que homens. Por que será? Nos tornamos mulheres que não sabem lidar com as próprias emoções, com seu próprio mundo interno, abrindo espaço para ciúmes excessivo, competitividade, irritações explosivas, TPM, compulsões alimentares e até a própria submissão. 

 

Essência feminina x essência masculina

 

É importante ressaltar e compreender que, aqui, vamos falar de essência feminina e masculina para compreendermos as diferenças existentes nesses dois polos. Não se trata de gênero mas sim de dois polos de energia que, como Jung já dizia, estão em todos nós. Feminino e masculino são energias complementares que estão presentes, ambos, em todos. Cada um tem um desses polos mais desenvolvido que o outro e o caminho da autorrealização, segundo Jung e outros estudiosos, seria integrar e equilibrar ambas as forças dentro de nós. 

 

Como mulheres, no geral, tendemos a ter a essência feminina mais forte em nós, e vice versa, mas isso não é regra. O importante a destacar aqui é o quanto estamos negligenciando as qualidades femininas em prol das qualidades masculinas. O quanto isso se reflete em nosso modo de viver, nossa qualidade de vida, nossas vivências em sociedade e o tratamento que a mulher e o feminino, em todas as suas manifestações, tem recebido. 

 

Vamos entender: 

 

A essência masculina está relacionada à energia de ação, produção, objetividade, racionalidade, praticidade. No corpo, está muito relacionada aos músculos e força muscular. Quando esta essência está distorcida, se torna violência, abuso, agressividade, rigidez. 

 

A essência feminina está relacionada à energia de flexibilidade, receptividade, aceitação do fluxo da vida, amorosidade, criatividade, acolhimento, emoções, intuição, sutileza e subjetividade. No corpo, está muito relacionada aos nossos líquidos e fluxos e as curvas corporais. Quando distorcida, se torna submissão, fragilidade, competitividade.

 

Percebemos, então, que ambos estão muito distorcidos em nossa sociedade e é a essência masculina que recebe as nossas honras. Buscamos essas qualidades com extrema importância e deixamos de lado as qualidades da essência feminina dentro e fora de nós. 

 

É preciso resgatar nossa força feminina, o respeito pelo feminino e pelas mulheres, começando pelo respeito com nós mesmas. Você tem se respeitado? Respeitado seu tempo, seu ritmo, seu corpo, seu ciclo, suas emoções? Tem respeitado as mulheres à sua volta? Tem respeitado a natureza, as águas, estas outras manifestações do feminino nutridor e criador? Como você tem lidado com sua essência feminina e sua essência masculina? 

 

Todas essas reflexões são de extrema importância para que possamos, cada vez mais, abrir espaço para o feminino em nós e em nosso entorno. Para que possamos traçar rumos de maior aceitação de nós mesmas e bem estar em nossa vida. Para que possamos nos permitir ser mais quem somos de verdade do que aquilo que nos dizem que devemos ser.